Febeapá

Marcelo Harger 

 

Sérgio Porto era o verdadeiro nome de um personagem que se tornou célebre no Brasil: Stanislaw Ponte-preta. Sob o pseudônimo citado o autor escreveu por vários anos, especialmente durante o regime militar, uma coluna, posteriormente transformada em livro, que se intitulava Febeapá. Febeapá era a abreviação de Festival de besteiras que assolam o país.

Noticiava em sua coluna situações que pareciam verdadeiras anedotas, mas que realmente haviam ocorrido. Relatava que em certa cidade notória pelos roseirais, o Município decidiu acabar com as formigas e para isso decidiu pagar uma soma em dinheiro por lata cheia de formigas que a ele fosse trazida. Não é preciso dizer que pessoas de cidades situadas a mais de cem quilômetros do local acabaram trazendo formigas para a cidade. Outra notícia foi que um prefeito do interior da Bahia declarou em um jornal que metade da câmara de vereadores era composta por ladrões. Diante da reação dos vereadores, no dia seguinte o prefeito ratificou a declaração dizendo que havia uma metade da câmara que não era composta de ladrões. Ninguém percebeu que o prefeito havia reafirmado o que havia dito anteriormente e as coisas se acalmaram.

Contava também que em uma cidade do interior o prefeito havia nomeado o seu cavalo como servidor público e que certo juiz ao ser chamado equivocadamente em um ofício de meretríssimo respondeu que meretíssimo vem de mérito e meretríssimo vem de coisa sem mérito algum.

Noticiava ainda os descalabros cometidos pela polícia. Havia a história de que os agentes do temido DOPS interromperam uma peça de teatro para prender o subversivo autor que se chamava Sófocles. Outra interessante foi uma nota expedida pela polícia do estado de São Paulo. Segundo a referida nota a vítima havia sido encontrada às margens de um rio, retalhada em quatro pedaços e dentro de um saco de aniagem atado a uma pesada pedra. A nota concluía que aparentemente estava descartada a hipótese de suicídio.

A lembrança do Stanislaw é importante, porque o Febeapá continua. Não se pode esquecer que a polícia federal prendeu há algum tempo a dona da Daslu. Para isso foi até a residência da distinta Sra. equipada com armas, helicópteros e metralhadoras. Que resistência poderiam esperar de uma dona de boutique? Temiam receber bolsadas?

No sul do país, mais especificamente na cidade de Joinville, descobriu-se que presos, trancafiados no presídio, realizaram uma churrascada de despedida, celebrando previamente a fuga. Felizmente a fuga foi frustrada, mas churrasco em presídio é cena que certamente ingressaria nas crônicas de Sérgio Porto.

O Febeapá atingiu também o caos aéreo e o acidente da TAM. Ao que se sabe, o avião tinha problemas mecânicos, a pista também não estava adequada e o único preso relacionado à essa tragédia foi o dono de um prostíbulos nas vizinhas do aeroporto de Congonhas. Certamente mais uma situação que mereceria o comentário do Stanislaw.

Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, faleceu em 29/09/68. Passados quarenta anos da sua morte o Febeapá continua. Resta saber quando o brasileiro dirá: CANSEI.

 

 

 

 

 

Marcelo Harger

Advogado com pós-graduação em Processo Civil, mestrado e doutorado em Direito Público.Coordenador do Curso de Pós-Graduação em Direito Administrativo e Gestão Pública do Complexo de Ensino Superior de Santa Catarina - CESUSC. Professor em diversos cursos de graduação, pós-graduação e extensão universitária, além de autor de artigos científicos e livros da área jurídica.

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