Balada de meia-idade

Era uma noite de sábado. Há tempos não saía sozinho. As crianças e a esposa ficaram em casa. Estava livre como nos tempos de solteiro. Eis que encontro o Luís. Ele estava na mesma situação. 

Começamos a papear e uma moça sorridente veio nos atender. Perguntou, com a maior simpatia, o que gostaríamos.  Fizemos o pedido e o papo continuou. Ambos concordamos que há tempos não encontrávamos um amigo na noite.

Comentei a cerca das danceterias em que íamos, e ele prontamente corrigiu dizendo que agora se fala balada. Balada, então, disse eu. Segundo ele, danceteria é coisa de velho. Pelo menos não falei discoteca, ou seria discoteque? Sei lá, mas o fato é que íamos nelas, e nas domingueiras. No Savege, Baturité, Rariah e Tênis Clube.

Bateu o saudosismo. Eram bons tempos. Lembramos das aprontadas de cada um, e das bagunças com os amigos. Concordamos que era bom rezar pedindo que nossos filhos nunca façam coisas parecidas.

Não vou escrever o que fazíamos por medo de levar um puxão de orelha dos meus pais. Pais são pais e pouco importa a idade que temos. O temor reverencial sempre subsiste.

Tampouco quero dar ideias aos meus filhos. Eles ainda não lêem, mas um dia aprenderão. Como filhos de advogado, certamente usariam as tolices que fiz como argumentos para escaparem de qualquer bronca.

Seria difícil explicar que tudo era diferente. As coisas, mais simples. Joinville era menor. Todos se conheciam. As pessoas eram mais tolerantes. Nem mesmo se usava cinto de segurança ou capacete. Outros tempos.

A menina trouxe o que pedimos e nos encaminhamos para realizar o pagamento. Conversamos um pouco mais na fila para o caixa. Dois caixas livres. Cada um fez o pagamento e pontuou o seu cartão fidelidade. Percebemos surpresos, que ambos os cartões tinham milhares de pontos.

Despedimo-nos dizendo que precisávamos nos encontrar uma hora dessas em um churrasco ou em um happy hour. Afinal de contas, encontrar  os amigos na farmácia no sábado a noite é algo depressivo, especialmente quando vemos que a pontuação do cartão fidelidade é maior do que o saldo bancário.

Marcelo Harger

Advogado com pós-graduação em Processo Civil, mestrado e doutorado em Direito Público.Coordenador do Curso de Pós-Graduação em Direito Administrativo e Gestão Pública do Complexo de Ensino Superior de Santa Catarina - CESUSC. Professor em diversos cursos de graduação, pós-graduação e extensão universitária, além de autor de artigos científicos e livros da área jurídica.

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