Abduzido

Era um dia claro. Passeava despreocupado, pensando na vida, quando subitamente vi a comida mais apetitosa que já vira. Estava ali dando sopa. Olhei para os lados e não vi ninguém. Não havia dono.

Tinha aquela aparência de coisa boa. Foi só olhar para a boca salivar. Gulodice à primeira vista. Abocanhei imediatamente o petisco e algo me puxou. O puxão foi forte. Levou-me para cima. Não adiantava me debater. A força a levar-me era imensa. Tentava resistir. Ia para um lado e para o outro, mas continuava preso e subindo rapidamente. 

Eis que uma luz surge. Era muito forte. Chegava a cegar-me. Vi ao longe uma plataforma de metal. Era para lá que a força me puxava. Exausto diante do inevitável parei de debater-me. Fiquei estático devido ao medo que senti. 

Bati na plataforma e fui puxado para o seu interior. Era uma atmosfera diferente, que tornava difícil respirar. Tornei-me ofegante. O temor da morte por asfixia começou a assombrar-me. 

Foi quando os vi. Duas figuras enormes. Tinham a pele branca, mas estavam cobertos por vestes acinzentadas. Do lado do corpo braços compridos, com cinco dedos em cada mão. Pernas longas. Usavam algo nos olhos como forma de proteção da luz. 

Um dos seres segurou-me por uma das extremidades e ergueu-me no ar. Podia ouvir os sons que emitiam. Embora não discernisse o que diziam, pareciam sons de contentamento. Enquanto um me segurava, o outro levou ao rosto um aparelho e o apontou para mim. Não entendi para o que servia, mas pude perceber em um relance que capturara uma imagem minha. 

O medo aumentou. Prenderam um instrumento em minha boca e ergueram-me novamente. Novos sons de alegria. Um deles segurava-me como se fosse um troféu, enquanto o outro novamente colocava o aparelho junto ao rosto. Mudaram, então, de posição e repetiram a operação.

Colocaram-me no chão junto a uma fita com diversas marcações. Aparentemente queriam medir-me, pois um gesticulava para o outro, mostrando com as mãos o meu tamanho.

Enquanto comemoravam fiquei deitado na plataforma de metal, sofrendo cada vez mais com a falta de ar. Imaginei que o meu fim era iminente. Quando tudo parecia perdido, uma das criaturas ergueu-me e gentilmente devolveu-me ao meu habitat.

Fugi com toda a força que ainda tinha em direção oposta à da plataforma de metal. Após recuperar minhas energias pensei: não é fácil a vida de tucunaré no Rio Negro.
 

Marcelo Harger

Advogado com pós-graduação em Processo Civil, mestrado e doutorado em Direito Público.Coordenador do Curso de Pós-Graduação em Direito Administrativo e Gestão Pública do Complexo de Ensino Superior de Santa Catarina - CESUSC. Professor em diversos cursos de graduação, pós-graduação e extensão universitária, além de autor de artigos científicos e livros da área jurídica.

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