A morte da velhinha de taubaté

 Marcelo Harger

 

Na época do regime militar o escritor Luis Fernando Veríssimo criou um personagem que bem sintetizava o espírito reinante entre os brasileiros. Era a velhinha de Taubaté, o último bastião da credulidade nacional. Ninguém, a não ser a velhinha de Taubaté, acreditava em nada que fosse dito, muito menos pelo governo.

Segundo o autor, ela acreditava em anúncio, nota de esclarecimento, que Omo lava mais branco e até nos ministros da área econômica. Acreditou inclusive que o Baumgarten se suicidou com três tiros e depois se atirou no mar.

A velhinha tinha como passatempo predileto ouvir o programa “O Povo e o Presidente” e acreditava que as respostas que este dava ao entrevistador eram improvisadas e não combinadas anteriormente.

Por ser a última pessoa crédula do país, tornou-se famosa e com isso perdeu o sossego, pois sempre havia alguém querendo entrevistá-la. Reza a lenda que ela chegou até mesmo a viajar ao exterior a convite de um ministro da Fazenda. Foi o depoimento dela que demonstrou para o FMI que a afirmação de que ninguém mais acreditava no país era mentirosa. Conseguiu, com isso, ajudar o país a obter um prazo maior para o pagamento da dívida então existente.

Os presidenciáveis sempre visitavam a velha senhora para assegurarem-se de que um mínimo de credibilidade em seus discursos haveria. Passado algum tempo, a confusão era tamanha que nem mesmo o gato da velhinha vinha cumprimentá-los. Recusava-se a aparecer até para o Maluf, único que sabia a sua data de aniversário.

Vaticinava o autor que quando a velhinha de Taubaté se fosse tudo desmoronaria, pois tinha-se a impressão de que o Brasil somente esperava “o sinal da morte da velhinha de Taubaté para decretar que a bagunça é esta mesmo, que não tem nada que ficar dando explicação pra otário”.

Toda essa introdução é para noticiar que a velhinha de Taubaté faleceu recentemente. Segundo Luis Fernando Veríssimo, morreu em frente à televisão, de causas desconhecidas. Felizmente foi antes da prisão do Maluf. Ao menos esse desgosto ela não precisou suportar.

A morte da ilustre personagem, que teve até enterro em Taubaté, é um símbolo dos tempos atuais. O brasileiro, finalmente, começa a perder a inocência. Passa a perceber que não pode depositar suas esperanças na figura de um único homem ou partido. Começa a enxergar que as soluções miraculosas não existem e a perceber que os discursos envolventes de certos políticos são apenas armadilhas. A famosa “solução para o Brasil” não existe. Não se muda uma realidade que levou décadas para ser construída num passe de mágica. Políticas sólidas e com continuidade são necessárias. É preciso, principalmente, que o brasileiro tenha memória, que não se esqueça nas próximas eleições daquilo que hoje se assiste no cenário nacional. Somente assim o Brasil deixará de ser o país do futuro e poderá tornar-se um país melhor para todos os brasileiros

 

 

 

Marcelo Harger

Advogado com pós-graduação em Processo Civil, mestrado e doutorado em Direito Público.Coordenador do Curso de Pós-Graduação em Direito Administrativo e Gestão Pública do Complexo de Ensino Superior de Santa Catarina - CESUSC. Professor em diversos cursos de graduação, pós-graduação e extensão universitária, além de autor de artigos científicos e livros da área jurídica.

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