A importância de vestir-se bem

 

Marcelo Harger
Hipocrisia é fogo. Nada pior do que lavar os próprios erros e descontar as frustrações nas costas dos outros. Ainda assim o ser humano é hipócrita. Delicia-se e lambuza-se com os erros alheios. Poucas vezes, no entanto, um erro tão pequeno tem repercussões tão grandes para alguém quanto teve para Geisy Arruda. Ela é a famosa estudante da Uniban que, ao usar um vestido curto, quase foi linchada pelos alunos da instituição.

A atitude desses estudantes é digna de repúdio, mas pode ser explicada. Por alguma razão, o ser humano quando está em uma multidão perde a noção de individualidade e pratica atos que jamais faria sozinho. O direito trata até de modo diferenciado os delitos praticados por uma multidão em estado de forte emoção.

Mais surpreendente foi a decisão da Uniban de expulsar a aluna (fato depois revisto). Parece medida que só poderia ser protaganizada pelo personagem de Luis Fernando Verissimo, o doutor Pundonor de Azevedo, que se horrorizava por ser fruto do pecado entre o pai e a mãe. Não importava que fossem casados. Para ele, os pais haviam rebaixado a união sagrada fornicando para dar origem aos filhos.

Discutir se a roupa da estudante era ou não adequada é questão de menor importância. É natural que pessoas que se vestem ou se portem de maneira inapropriada em face ao grupo ao qual pertençam acabem ficando deslocadas. Somente em regimes totalitários governados por fundamentalistas islâmicos, no entanto, utilizar uma roupa inadequada pode dar origem à prisão e quiçá ao apedrejamento. Isso acontecia no Afeganistão, quando era governado pelo Taliban, por exemplo.

Em regimes democráticos, a coisa é diferente. Qualquer ser humano tem o direito de ser “jacu” sem ser linchado por isso. O fato é que a situação ilustra muito bem a veracidade da antiga campanha de uma marca de roupa: “O mundo trata melhor as pessoas que se vestem bem”. A Uniban e o Taliban estão aí para comprovar.

A partir de agora, fico com medo de ingressar em qualquer instituição que termine com “ban”. Vai que impliquem com a minha gravata...

marcelo@hargeradvogados.com.br

Marcelo Harger

Advogado com pós-graduação em Processo Civil, mestrado e doutorado em Direito Público.Coordenador do Curso de Pós-Graduação em Direito Administrativo e Gestão Pública do Complexo de Ensino Superior de Santa Catarina - CESUSC. Professor em diversos cursos de graduação, pós-graduação e extensão universitária, além de autor de artigos científicos e livros da área jurídica.

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